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Quando a sexualidade invade a infância8 min read

As crianças são influenciadas negativamente a todo momento. Vítimas de assédio, elas correm o risco de perder a fase mais importante da vida. Saiba como lidar com a erotização infantil

Quando a sexualidade invade a infância8 min read

Batom vermelho e olhos pintados. Camisas sociais e cabelos bem arrumados. Nas filas de milhares de baladas e casas de show é possível encontrar meninas com roupas curtas e meninos que agem como se fossem mais velhos. De um lado há o desejo de sentir a adrenalina da vida adulta, do desconhecido; de outro, a perda da infância. Influências da mídia, da sociedade e até mesmo da família têm feito com que essas crianças e adolescentes sejam vítimas da erotização.

Mas o que seria exatamente isso? Afinal de contas, até onde vão os limites da vaidade e da sexualidade quando se fala de infância e juventude? O psiquiatra Pérsio Ribeiro Gomes de Deus explica que é preciso saber diferenciar a descoberta da sexualidade.

“A descoberta acontece dentro de um movimento de conhecimento e exploração do próprio corpo, sem qualquer maldade por parte da criança. Já erotização corresponde ao movimento ou ações em entrar no mundo sexual adulto quando ainda não há preparo psicológico. Isso faz com que uma série de fases normais do desenvolvimento não sejam vividas ou sejam ultrapassadas”, explica.

Erotização precoce: “pedofilização”

Quando a sexualidade invade a infânciaA executiva de vendas Eliane Rocha, de 38 anos, (foto ao lado) conta que quando criança tinha um corpo que chamava atenção e os homens não a respeitavam. “Eu sofri um abuso sexual por parte um familiar. Além disso, meu pai era alcoólatra e isso me deixava com muita raiva, queria ser independente e sair de casa”, desabafa.

Esse abuso refletiu na postura de vida de Eliane ainda na infância. Aos 12 anos, ela já bebia, fumava e frequentava casas noturnas. “Usava roupas extremamente chamativas e maquiagens exuberantes, chamava atenção dos homens ao redor que muitas vezes não imaginavam que eu era apenas uma criança”, afirma.
Tempos depois, revoltada por ser usada pelos homens, se tornou garota de programa e seguiu nessa vida por alguns anos. A mãe dela já frequentava a Universal e, vendo o sofrimento da filha, a convidou para ir a uma palestra. Ela aceitou e diz que foi por meio da fé que conseguiu perdoar o abusador. “Eu me libertei das mágoas, da tristeza por ter perdido a infância e consegui recomeçar”, revela.

Hoje, com quatro filhos, ela conta que busca protegê-los e orientá-los. “Não há respeito. Outro dia tive que mandar uma mensagem a um homem velho que ficou procurando minha filha de apenas 14 anos nas redes sociais. Ela tem um corpo bonito, então eu converso muito a respeito da valorização de si mesma”, finaliza.

Quando se trata de abuso infantil, é preciso esclarecer que a pedofilia é uma doença silenciosa e os números são alarmantes. Segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos são contabilizadas por ano mais de 25 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. No ano passado, por exemplo, o Ministério da Saúde registrou 12.919 abusos contra crianças (meninos e meninas menores de 12 anos).
“é uma espécie de ‘pedofilização’ generalizada nessa sociedade em que o que importa é o lucro. E assim as crianças passaram a representar meros objetos: ora consumidoras, ora produtos a serem consumidos! Isso explica de certa forma a explosão absurda dos sites de pedofilia e o crescimento da própria prática criminosa”, orienta o psiquiatra.

Sem limites entre a infância e a vida adulta

Um fenômeno recente? Os especialistas dizem que não. “Se voltarmos na história e visitarmos Roma Antiga, por exemplo, veremos lá inúmeros exemplos de erotização infantil dentro da decadente sociedade dos ‘nobres romanos’, ressalta o psiquiatra Pérsio Ribeiro.

O historiador francês Philippe Arií¨s esclarece em seu livro História Social da Criança e da Família que na Idade Média nem sequer existia infância. “De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antes da Idade Média e que se tornaram aspectos essenciais das sociedades evoluídas de hoje”, analisa o pesquisador.

Segundo ele, foi após início do século 20 que nasceu a preocupação com questões relacionadas aos direitos das crianças. Só que o curioso é que a mesma sociedade que hoje condena terríveis crimes envolvendo abusos contra crianças acaba promovendo uma cultura que valoriza a sensualização dos pequenos.

“Seja nos anúncios publicitários, seja nas novelas, programas de auditório ou em músicas, a sexualidade exacerbada está presente no dia a dia de todos no Brasil. Bombardeadas por informações desse tipo, muitas crianças têm o seu desenvolvimento afetado, atropelam fases importantes da vida e acabam transformadas em miniadultos”, alega a psicopedagoga Keli Teske Victorino.

A psicóloga Rubianara Cabral explica que os meios de comunicação utilizam o público infantil para influenciar o jeito de vestir, falar e agir, despertando ainda mais pensamentos pedófilos. “Por exemplo, há muitas propagandas em que meninas e meninos criam um padrão em que as crianças e pré-adolescentes devem se vestir como adultos. E tambén estimulam a exposição de fotos ou vídeos sensuais nas redes sociais”, fala.

Amadurecimento prematuro

Quando a sexualidade invade a infânciaFernanda Leal Gonçalves, de 28 anos, (foto ao lado) analista de marketing, conta que por não ter convivido com crianças na infância perdeu etapas importantes. “Eu ficava sempre com adultos, então acabava imitando as mulheres mais velhas. Ainda criança queria ser como uma mulher. Comecei a me depilar e a fazer as unhas com 10 anos de idade”, lembra.

Ela diz que acredita que agia assim porque assumiu responsabilidades muito nova. “Desde nova, a pedido dos meus pais, cuidava da minha irmã em casa e na escola. Eu me comportava como se fosse a mãe dela, participando das reuniões com professores, ajudando-a nas lições de casa, acompanhando-a nas atividades extracurriculares”, diz.

A analista destaca que sofreu consequências por conta disso. “Quando me abri para a área sentimental, já era adulta com comportamentos de adolescente e isso me acarretou escolhas prejudiciais. Aprendi algumas coisas após dolorosas experiências. O que aconselho hoje aos jovens que convivo é que há tempo para tudo conforme as fases e que, se elas forem bem vividas, resultarão em um futuro riquíssimo”, finaliza.

Influência fundamental

A pedagoga e mestre em educação Letania Kolecza diz que a família pode ser tanto preventiva como estimuladora dessa erotização, por isso, é preciso ter muita atenção. “Antes de tudo, os pais precisam aprender que são exemplos. Os filhos vão imitar comportamentos, então, é necessário ser um bom modelo”, aconselha.

Ela lembra também que é crucial proteger os filhos de terceiros. “Não podemos esquecer que a maioria dos casos de pedofilia é cometida por alguém da família ou próximo. A internet hoje em dia também tem aberto espaço para o assédio”, complementa.

Quando a sexualidade invade a infânciaMas e quando os filhos estão naquela fase rebelde? Suellen Gomes de Souza, de 18 anos, (foto ao lado) estudante, por exemplo, começou a frequentar baladas aos 13 anos e usava o RG da irmã para conseguir entrar nos locais. “Minha diversão era sair todos os fins de semana com pessoas bem mais velhas do que eu. Me vestia com roupas de adulto e me maquiava muito. Acabava recebendo muitas cantadas de homens mais velhos”, conta.
Os pais dela não sabiam como agir e decidiram pedir ajuda na igreja. “Foi quando recebi um convite para ao grupo Força Jovem e lá aprendi que podia aproveitar minha adolescência de forma saudável e que isso era muito melhor. Hoje ajudo outras jovens e estou me preparando para entrar na faculdade”, completa.

Aline Munhoz, professora e coordenadora da Godllywood School, uma escola que ensina valores e princípios de vida para meninas de 6 a 14 anos, explica que a família tem um grande papel na formação dos filhos e, por isso, deve saber impor limites.

Quando a sexualidade invade a infância“Temos muita dificuldade de trabalhar com crianças que não recebem o exemplo dentro de casa, pois estamos ensinando algo muito distante de sua realidade. Por isso, é preciso dizer não quando necessário e ter muito diálogo. E, é claro, ser referência em tudo, desde as vestimentas ao comportamento. Essas atitudes valem mais do que mil palavras”, orienta.

A criança precisa descobrir que ser criança é bom. Brincar até ficar suja, cantar, pular, se divertir sem querer pular etapas. Para isso é preciso que os pais, os cuidadores e você, leitor, combata essa erotização infantil que pode estar invadindo seu lar agora. Não podemos mudar o mundo do dia para a noite, mas podemos proteger, ser exemplo e incentivar nossas crianças a viverem a infância da melhor maneira que existe: longe da mídia e perto dos brinquedos.

O Godllywood visa auxiliar mulheres em toda e qualquer situação, desde que ela deseje realmente ser auxiliada e moldada para uma mulher melhor. Conheça mais sobre o grupo e saiba como participar dos projetos clicando aqui.


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  • Por Ana Carolina Cury / Fotos: Fotolia e Demetrio Koch  


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