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A saga dos jovens em busca de trabalho9 min read

Com taxa de desemprego de 27,3%, jovens de 18 a 24 anos usam criatividade e paciência para superar os desafios

A saga dos jovens em busca de trabalho9 min read

A saga dos jovens em busca de trabalhoNa atual situação econômica e política do Brasil, a busca por um espaço no mundo do trabalho se tornou uma verdadeira saga para os jovens. Encarar o desafio exige cada vez mais criatividade e paciência.

Depois de um ano enviando currículos, Maray Pinheiro Santos (foto ao lado), de 20 anos, acaba de conseguir um estágio em Jornalismo. Carla Daniela, de 25 anos, abriu uma loja de materiais esportivos com o pai depois de procurar emprego por nove meses. Grazielly Camargo Guimarães, de 21 anos, fez intercâmbio para melhorar o inglês e se destacar no mercado, mas a dificuldade de encontrar boas vagas a levou a se dedicar à loja de produtos de nutrição que mantém com a mãe. Fluente em inglês e espanhol, a advogada Ana Luisa da Silva Álvares, de 24 anos, atende clientes por conta própria enquanto aguarda o resultado de dois processos para trainee. Lucas Matos, de 23 anos, fez cursos técnicos para entrar no mercado e mudar de área dentro da empresa em que atua.

Ao longo desta reportagem, você conhecerá os obstáculos enfrentados por esses jovens e verá dicas de especialistas para quem está iniciando a vida profissional.

Desemprego

Para os jovens, a situação do desemprego é pior do que para a média dos trabalhadores. No segundo trimestre do ano, a taxa de desocupação entre pessoas de 18 a 24 anos ficou em 27,3%, mais que o dobro da média de desemprego no País, de 13%. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e estão disponíveis na última Carta de Conjuntura lançada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os jovens recebem as menores remunerações e tiveram queda de 0,5% de salário, na comparação com o mesmo período de 2016.

Enquanto o desemprego continua alto, muitos jovens trabalham de forma autônoma ou investem no negócio próprio em busca de alternativas de renda. A taxa de jovens entre 18 e 24 anos que empreendem é de 20,8%, segundo as últimas informações do Monitor Global de Empreendedorismo (GEM, em inglês).

Desafios

Apesar das dificuldades que o mercado apresenta, a psicóloga e coach vocacional Audrei Teodoro de Souza lembra que os jovens não devem desanimar. “é importante manter a autoestima elevada porque os momentos de dificuldade podem surgir em muitas fases da vida”, diz. Ela sugere que os jovens façam um planejamento para ingressar no mundo do trabalho. “Durante o planejamento, é importante relembrar as histórias de vida, anotar os desafios que enfrentou, como os solucionou e o que aprendeu com eles”, diz. Outra dica é trabalhar os pontos fracos e trocar informações com amigos e familiares.

A psicóloga afirma que é preciso manter o equilíbrio para que a ansiedade não atrapalhe. “O jovem não deve esquecer de outras dimensões da vida, como a família, os amigos e a prática de atividades físicas. Às vezes, a pessoa fica tão preocupada com o trabalho que esquece o resto. Não dorme direito, não come e acaba perdendo o foco”, alerta.

O psicólogo e mestre em psicologia Yuri Busin, diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental Equilíbrio (Casme), crê que aprender a lidar com a frustração é outro desafio. “Alguns jovens acham que a busca por trabalho é simples, fácil, e não conseguem lidar com a frustração. é preciso ter calma, paciência e não desistir na primeira tentativa”, orienta.

Para os jovens que enfrentam pressões da família por causa do desemprego, o especialista sugere que se explique aos familiares as etapas da seleção. “Algumas pessoas não entendem como funciona a dinâmica da busca por trabalho hoje. é melhor conversar com a família do que ficar na defensiva e discutir”, afirma.

Criatividade

A estudante Maray participou de vários processos seletivos até conseguir o tão sonhado estágio. Durante um ano, ela viveu uma rotina que incluía buscar vagas em sites e redes sociais, ajustar o currículo e participar de entrevistas. “Eu enviava currículo quase todos os dias. Fui a muitas entrevistas, mas nunca passava. Está bem concorrido”, explica ela, que cursa o sexto semestre de Jornalismo.

Maray revela que teve de aprender a lidar com a ansiedade por não conseguir trabalho. “Para não ficar ansiosa, tentava nutrir minha mente com pensamentos positivos. Quando a insegurança surgia, buscava a fé e imaginava que minha hora chegaria. Eu só não podia desistir”, esclarece.

A jovem conta que usou a criatividade para conseguir experiência na área mesmo sem ter um emprego. Ela criou um blog para treinar a escrita e divulgar seu trabalho. Também atuou na agência de comunicação da faculdade. Integrante do Força Jovem Universal (FJU) em São Paulo, Maray afirma que a participação na equipe de mídia do grupo a ajudou.

No último ano, ela passou a trabalhar por conta própria para conseguir renda. “Comecei a vender brincos e colares para amigas e conhecidas. E conquistei minha renda.” Prestes a concluir a graduação, Maray já traça planos para o futuro. “Gostaria de trabalhar na televisão, em programas de entretenimento ou como apresentadora. é um sonho e acredito que vou conquistá-lo aos poucos”, conclui.

Empreendedora

A saga dos jovens em busca de trabalhoCarla Daniela (foto ao lado) conta que ainda está aprendendo a comandar a pequena loja de artigos esportivos que abriu com o pai há poucos meses no Brás, na zona leste de São Paulo. A jovem começou a trabalhar aos 16 anos na área administrativa, mas decidiu encarar o desafio no comércio depois de ficar desempregada por nove meses. “Meu currículo era legal, eu tinha trabalhado em vários escritórios, mas estava complicado encontrar algo. Lembro que imprimi uns 40 currículos e entreguei quase todos pessoalmente.”

Ela diz que foi difícil lidar com as negativas. “Depois da última entrevista, fiquei preocupada quando me disseram que o processo seletivo tinha terminado para mim. Eu não podia mais ficar sem trabalhar.” Carla, então, aceitou um emprego como vendedora de cosméticos. Apesar da timidez, ela explica que aprendeu técnicas de vendas e desenvolveu novas habilidades. Depois de três meses no cargo, a jovem se uniu ao pai para abrir a loja. “Meu pai escolhe as mercadorias e eu organizo o estoque, cuido das notas fiscais, do pagamento de fornecedores, das planilhas”, detalha ela, que usa a experiência na área administrativa e os conhecimentos da faculdade de Recursos Humanos para gerir o empreendimento. “Vou continuar investindo no comércio. No futuro, queremos ampliar a loja.”

Negócio após intercâmbio

A saga dos jovens em busca de trabalhoGrazielly (foto ao lado) também optou por investir no negócio próprio após buscar vagas de trabalho no mercado formal. Ao lado da mãe, ela administra uma loja de produtos de nutrição em São Paulo. Em maio deste ano, a jovem embarcou para a Holanda, onde fez intercâmbio de três meses para estudar inglês e holandês. Para isso, trancou a faculdade de Nutrição, que deve ser retomada em 2018. “Quando fui para a Holanda, achei que o inglês abriria muitas portas. Cheguei a enviar alguns currículos, mas não tive retorno. Financeiramente falando, vi que compensava mais investir em algo para mim”, afirma.

Grazielly conta que a experiência de morar no exterior está sendo útil na gestão do negócio. “O intercâmbio me trouxe mais independência. Aprendi a resolver problemas e hoje encaro todos os desafios. Aprendi a lidar com pessoas diferentes, antes era meio tímida”, diz. A iniciativa e a criatividade da jovem não são novidades. Ela começou a trabalhar como manicure aos 14 anos, transformando esse hobby em fonte de renda. Agora, o plano é crescer como empreendedora. “Quero ampliar nossa franquia e continuar na área de nutrição, gosto muito dela. E vou seguir praticando inglês. Penso em dar aulas também”, conclui.

Planos no exterior

A saga dos jovens em busca de trabalhoAna Luisa (foto ao lado) concluiu o curso de Direito em uma renomada universidade da capital paulista em junho de 2016. Desde então, ela atende clientes particulares e participa de processos seletivos para trainee. Para se preparar para as etapas de seleção, a jovem estuda diariamente e acompanha notícias sobre as empresas em que deseja atuar. “Tenho estudado sobre economia e mercado de capitais, sobre alimentos, relacionamento com o consumidor. Procuro ler jornais e sites dessas áreas para me manter atualizada.”

Se não for selecionada, Ana Luisa pensa em mudar de país para fazer uma pós-graduação e até trabalhar. “Estou analisando alguns países e buscando bolsas de estudos que vão abrir no ano que vem na Universidade de Stanford (Estados Unidos) e na Universidade de Cambridge (Inglaterra). Quero progredir na carreira e uma pós-graduação é importante”, diz ela, que fala inglês e espanhol e quer aprender outro idioma a partir de 2018.

Plano

A saga dos jovens em busca de trabalhoLucas (foto ao lado) afirma que traçou no ensino médio uma estratégia para começar a vida profissional. “Analisei as indústrias de Jundiaí, no interior de São Paulo, e decidi fazer um curso técnico em plásticos.” Antes de conseguir um emprego na área, entretanto, o jovem diz que perdeu as contas de quantos currículos enviou. “Foi um processo bem desgastante. Eu procurava vagas todos os dias em sites, agências de emprego, jornal”, diz.

Ele explica que no início as entrevistas geravam nervosismo. “Em alguns casos, não sabia o que responder, mas acabei treinando bastante.” Depois de ser contratado, Lucas buscou informações sobre outros setores da empresa e passou a acompanhar notícias sobre o mercado. “Descobri que a área de componentes eletrônicos da empresa estava crescendo e fiz um curso técnico em eletrônica. Assim, mudei de setor”, detalha.

Lucas foi transferido para uma nova área na empresa. Desta vez, a mudança foi motivada por sua atuação no grupo de mídia do FJU, onde desenvolveu habilidades relacionadas à fotografia e à comunicação. “Eu estava prestes a começar a faculdade de engenharia em uma universidade pública, mas descobri a publicidade e decidi fazer graduação na área. Depois de alguns meses, surgiu a oportunidade de trabalhar como designer gráfico na empresa”, comemora ele, que também atua como fotógrafo por conta própria.

Desafio para o País

A redução de vagas formais, as dificuldades econômicas do País e a falta de políticas voltadas para os jovens fazem com que o início da vida profissional seja mais desafiador. Nesse cenário, a educação e a qualificação profissional tornam-se ainda mais importantes. Mas uma mudança na situação brasileira também depende de políticas públicas. Como vamos garantir o futuro do País sem criar condições para que a juventude consiga superar tantos obstáculos?


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  • Por Rê Campbell / Fotos: Demetrio Koch, Fotolia e Arquivo Pessoal / Arte: Edi Edson  


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